Baixamar


(by Miss Blue)


É estranho que uma terra tão pequena, aliás tão estreita que é quase só uma língua, tenha tantos restaurantes tão bons. A terra chama-se Santa Luzia, fica mesmo ao lado de Tavira e consiste numa fileira de casas baixinhas e uma estrada que as divide da fileira de barcos pequeninos de quem tem como vida pescar na ria. Santa Luzia é a única hipótese civilizada para jantar para quem está em Tavira, porque nessa terra esqueceram-se de unir o substantivo “restaurante” ao adjectivo “decente” e ou se pára numa pizzaria que também serve arroz de marisco ou num terraço do castelo com medalhões de tamboril congelados. Se for para Sotavento encontra Cacela e Cabanas, com excelentes restaurantes que também merecem muito tempo e atenção, mas ficamos por Santa Luzia por hoje. Tem uma afamadíssima Casa do Polvo e um ainda mais reconhecido Capelo. Os dois são excelentes e valem a visita, mas não é deles que vamos falar – o primeiro por ser totalmente ditatorial  nas horas das refeições, que é algo que gera antipatia imediata no que respeita a espírito Blue; o segundo porque muito bom mas tão caro que afugenta qualquer tentativa de Budget.
No meio, sossegadinho, sem se dar por ele, ao lado de um bar com um rafeiro residente, fica o Baixamar. Ninguém lá entra por escolha. Não salta à vista, não é bonito, não chama a atenção por nada em particular. Mas é Agosto e há filas em todo o lado e ali parece que a fila anda mais rápido e o senhor simpático de óculos que deve gastar duas mil calorias por refeição a servir uma sala inteira lembra-se dos nomes de toda a gente e não é nada pretensioso e põe os chicos-espertos  que tentam furar a fila no seu lugar. Ah, e serve fora de horas, se nós dissermos que estamos com muita fome e que a alternativa são club sandwiches no hotel. É assim que se conquista clientes, Mr Budget. A cozinheira do Baixa-Mar é a mulher do senhor simpático. O senhor simpático gosta de converseta quando tem tempo e quando não tem arranja sempre maneira de sorrir. Repito que estamos a falar de Agosto, aquele mês em que ser português continua a ser mal-visto em muitos locais algarvios e em que as pessoas querem uma mesa para comer frango assado com a mesma ferocidade com que lutariam por uma Louis Vuitton grátis na Fashion Night Out, por isso um sorriso vale muito.
A ementa é simples e consiste em polvo. Arroz de polvo, polvo de coentrada, filetes de polvo... Santa Luzia é terra de pescadores de polvo, acho que fica subentendido. Há mais coisas na ementa, mas em 4 anos que lá vou, nunca cheguei a ler sequer a essa parte. Porque páro no Polvo à Algarvia, começo a salivar e não sossego até que ele chegue à minha frente. O Polvo à Algarvia é uma invenção da cozinheira da casa. É tão simples que custa acreditar que ainda ninguém tivesse pensado no assunto. Imagine uma carne de porco à alentejana, Mr Budget. Agora tire a carne e ponha polvo. Está feito o prato mais sumarento, suculento, apetitoso e perfeito quer pode desejar para jantar: batatas fritas aos quadradinhos, pequenas e macias; azeitonas pretas, rodelinhas de polvo e tentáculos de polvo, amêijoas em total abundância e supremo sabor e molho delicioso que nunca mais acaba para molhar o pão. É genial. Há óptimas sobremesas, de certeza. Mas eu fico sempre à espera que a maré volte a encher, me leve para a ria a rebolar e que o dia nasça outra vez e seja hora de lá voltar.