Mr Budget, para não me chamar snob, vou
partilhar um hábito comum que cultivo com prazer: ir almoçar sozinha. Ir
almoçar sozinha implica alguma dose de auto-confiança, a companhia necessária
do jornal diário e a existência de um restaurante com pratos apelativos o
suficiente para fugir ao binómio massas / saladas que normalmente compõe esta
refeição.
Assim, seguindo o meu nariz apurado, ouvindo o
estômago pedir peixe fresco com direito a esplanada despretensiosa, e sabendo
que a carteira só comporta contas
razoáveis, dirigi-me ao Verde Gaio – um restaurante coladinho à praça de Campo
de Ourique (agora chamam-se mercados; eu sei) que usa essa mesma localização
como argumento máximo de frescura assegurada.
Vestida com cores que honravam o dia de Verão,
entrei num reino de gravatas e mangas de camisa que interromperam brevemente a
conversação com a minha chegada. Qual entrada em stand de automóveis, sentimos
que não é exactamente ali que se espera que estejamos – e muito menos
desacompanhadas. O empregado lá me arranjou uma mesa para um, naquela
insistência que os senhores das bilheteiras do cinema já aprenderam a perder.
Perante as tabuinhas originais, cada uma transformada
em carta de entradas, vinhos e sobremesas, pedi chocos assados sem tinta e saltei
os folhados apetitosos que estavam a distribuir – se a ideia é comer peixe
grelhado, que atinja a as papilas gustativas com o choque de um meteorito e não
saiba a castigo depois de uma orgia de queijo e massa folhada.
Esperei alegremente o tempo que os chocos
precisam para se porem apresentáveis, com um olho no jornal e um ouvido na mesa
da frente, onde se discutia com veemência a condição de sócio sportinguista: se
não se pagam as quotas, continua-se associado, ou é-se banido de uma condição
determinada à nascença, por meras questões pecuniárias? A discussão estava a
atingir níveis verdadeiramente filosóficos quando a travessa chegou.
E foi um choque, Mr Budget. Dois chocos médios
e perfeitos, com o dourado a anunciar dentadas saborosas e algumas batatinhas
assadas a compor, mas não muitas, para não distrair do principal. Saboreei o
primeiro choco: leve, elástico mas macio, com uma satisfação enorme e
apreciando as batatas novas e pequeninas, douradas de azeite para combinar.
Mas o segundo choco foi verdadeiramente
chocante, com vestígios de massa branca e cristalizada por dentro, textura mais
rija e sabor muito menos impactante, como gostam de dizer na nossa área. Provei
um pedaço, agradeci à sorte o facto der poder ter apreciado o primeiro choco sem
máculas e pedi um café. As sobremesas tinham excelente aspecto, mas essas é que
não se podem pedir sem alguém para partilhar, correndo o risco de começar a
almoçar sozinha por obrigação. (Uma das sobremesas famosas da casa é o pastel
de nata, que vem quente a acompanhar o café; mas dá a sensação que acabámos de
tomar o pequeno-almoço e não ajuda à esquizofrenia contra a qual já se luta
diariamente.)
A conta foi pequena, mas de facto uma má
impressão apagou todas as boas referencias anteriores. Há que repetir, com
companhia, num outro dia, com um outro peixe, e com uma sobremesa tão fresca
como o primeiro choco se anunciou.
créditos imagem: wikia